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A Construção de Noite sem Fim janeiro 8, 2012

Posted by rpellanda in Notícias.
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Noite sem Fim, o livro que abre a série de fantasia O Além-mar, é fruto de quase dois anos de trabalho. Durante este período, a história passou por sucessivos ciclos de amadurecimento, revisão e transformação.

Sempre quis que Noite sem Fim fosse uma história centrada nos personagens. O eixo inicial tinha que ser um protagonista forte, mas um tanto imaturo e conflituado.

O Martin brotou do meu inconsciente de forma natural. Um garoto de quatorze anos que, além das inseguranças normais da idade, está fragilizado por uma situação de vida que não era a que ele desejava. O pai partiu para o Além-mar (de onde todos sabem que ninguém retorna) há seis meses. Martin foi obrigado a morar com um tio e um primo que nunca foram próximos e que não nutrem nenhuma simpatia por ele.

Acuado de todas as formas possíveis, Martin poderia resignar-se e deixar tudo como está. Mas há algo mais nele: uma força, um espírito explorador, uma inquietude… No começo, estas coisas não transparecem muito; são sutis. À medida que o Martin mergulha na trama em busca das respostas de que tanto precisa, ele vai descobrindo que tem mais dentro de si do que apenas dúvidas e insegurança.

Todo este percurso é pontuado por conflitos internos. No começo, Martin pode seguir o caminho mais difícil e perigoso ou deixar tudo para lá. Depois de envolvido na trama, ele tem que pesar o risco das coisas que está fazendo com a segurança daqueles que ama, especialmente da Maya. No final (ato III), a escolha fica ainda pior.

As verdades que ele desnuda são duras e as situações a que elas conduzem, perigosas. É nesta dança de ação e reação que ele amadurece. E este também será o fio condutor de toda a série: para completar o seu destino (maldito destino, diga-se de passagem) no final do livro dois, Martin precisará concluir a sua transformação em um homem adulto.

Maya é a filha do livreiro da Vila.

A livraria dos pais de Maya fica na Praça dos Anciãos, o ponto de encontro central da cidade.

A personagem vive no centro de um conflito: como todos na Vila que trabalham com livros é preciso dividir-se entre duas vertentes: uma confortável e a outra arriscada. Numa livraria, pode-se vender apenas literatura Anciã, ou aventurar-se com livros de verdade. O comércio dos livros autorizados pelos Anciãos, tais como as biografias do capitão Robbins (leitura obrigatória para qualquer cidadão respeitável), é seguro e gera um lucro garantido. Mas, na opinião de Maya ou de qualquer outra pessoa esclarecida, é uma leitura profundamente entediante. Livros de verdade, são caros e perigosos.

Maya sabe tudo sobre livros, tanto por trabalhar na livraria quanto por ser uma leitora voraz. Ela é resoluta e racional; suas decisões costumam ser bem pensadas e não intempestivas.

A relação entre o Martin e a Maya é de sinergia: embora sejam diferentes, quando estão juntos, tornam-se pessoas melhores do que seriam sozinhos. Acho que esta é uma característica muito comum em casais bem sucedidos.

Omar, o melhor amigo de Martin, foi pensado para ser uma espécie de contra-ponto.

Intelectual e amante dos livros, Omar é do tipo que organiza uma aventura, mas, na hora de colocá-la em prática, pode se arrepender, preocupado com as consequências.

Colocando o trio junto, é provável que a química seja mais ou menos esta: Martin quer explorar, mesmo que seja perigoso; Maya não discorda, mas aponta uma forma melhor de se fazer as coisas; Omar, concorda e acrescenta sugestões inteligentes e práticas (pelo menos até a hora em que as coisas acontecem, quando ele então se apavora).

Um dos assuntos que mais me interessa no estudo da técnica literária é trama & estrutura. Por isso, fiz questão de construir Noite sem Fim dentro de uma estrutura em três atos tradicional, adaptada às necessidades da trama. O leitor curioso e interessado no assunto, reconhecerá os três atos e as passagens (doorways) entre os atos I-II e II-III no decorrer da história.

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O regime Ancião: como manter todo mundo feliz vivendo numa mentira janeiro 8, 2012

Posted by rpellanda in Notícias.
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O sucesso de uma mentira não depende da perícia de quem conta, mas sim da vontade de quem ouve de ser enganado.

Na Vila não existe nenhum tipo de questionamento a respeito da doutrina Anciã.

Quando criei o regime Ancião tive apenas uma diretriz em mente: o resultado tinha que lembrar, mesmo que indiretamente, eventos históricos reais. Ao observar a história, percebemos que os mecanismos pelos quais um regime totalitário se perpetua são frequentemente recorrentes. Existem alguns elementos que volta e meia estão presentes e que se repetem:

1- O medo:

No filme Fahrenheit 9/11, Michael Moore apontou que na era Bush (filho) a população mantinha-se alinhada com o governo pelo medo. Depois do 11/9, a Casa Branca usava a ameaça de um novo atentado terrorista como forma de manter o cidadão dentro da órbita do regime. O americano comum poderia pensar algo do tipo: “Esse cara faz tudo errado e está bagunçando a economia, mas pelo menos está de olho nesses terroristas…”.

O povo da Vila se mantém na linha pelo pavor que tem dos Knucks; todos sabem que os monstros que vêm do Além-mar são uma ameaça real. Os livros de história descrevem as criaturas monstruosas em detalhes e todos sabem o que elas fazem quando invadem a cidade… Neste contexto, as pessoas acreditam que os Anciãos sabem o que fazer para proteger a cidade desta ameaça.

2- A vontade de viver dentro de uma zona de conforto, mesmo que isso signifique viver numa mentira. O ser humano troca felicidade por segurança…

Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, quando a Alemanha obviamente se preparava para a guerra, o Primeiro Ministro Britânico, Neville Chamberlain, foi conversar com Hitler para tentar estabelecer um acordo de paz. Quando retornou, Chamberlain acreditou em tudo que Hitler disse:

“Acredito que essa é a paz de nosso tempo… agora recomendo a todos que vão para suas casas e durmam tranquilos em suas camas…“

Sério. Isso aconteceu.

3- Pela ignorância. Por privar o cidadão do saber.

Na Vila, a literatura é controlada pelos Anciãos que decidem o que pode ou não ser lido. O resultado é que não existe um número suficiente de cabeças pensantes aptas a questionar o regime.

4- Pela força, é claro.

Na ditadura militar brasileira, por exemplo, a polícia/exército caçavam os inimigos do regime. Na Vila, os Capacetes Escuros são a polícia dos Anciãos.

Os Capacetes Escuros estão sempre de olhos bem abertos para identificar transgressores da ordem e dos bons costumes.

Ao contrário do que diz a famosa frase, acho que é possível enganar muitos por muito tempo, desde que as pessoas estejam suficientemente:

1- Com medo de alguma coisa;

2- Satisfeitas com as suas vidas a ponto de não quererem mudanças de nenhum tipo (mesmo que talvez seja para melhor);

3- Ignorantes a respeito do mundo onde vivem. A maneira mais prática de se conseguir isso é privar o cidadão da literatura;

4- Conscientes de que há uma força truculenta pronta para punir fisicamente as vozes discordantes.

 

A estética de Noite sem Fim janeiro 8, 2012

Posted by rpellanda in Noite sem Fim, Notícias.
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O conceito básico inicial de Noite sem Fim foi bem visual.

Por isso, investi na criação de uma estética própria como sendo um ponto central, aderido à alma do livro; ela começou baseada em premissas bem simples:

1- Um lugar onde é sempre noite;

2- Uma cidade medieval: calçadas de pedra, etc…

3- Tudo iluminado pela luz amarelada de lampiões pendurados em postes.

A partir daí, a história tomou forma rapidamente e fui atropelado pela necessidade de escrever uma primeira versão. Foi a primeira vez que escrevi fantasia. Isso era lá pelos primeiros meses de 2010.

Bem depois, quando o livro já estava nas mãos da Tarja Editorial, tive a sorte de encontrar a Camila Fernandes (MilaF@) que, além de ilustradora, é também escritora. A Mila leu o original e incorporou de forma super orgânica e precisa a estética da Vila. O resultado foi a capa de Noite sem Fim: é o mais próximo que se pode chegar da experiência de andar numa rua da Vila (com os olhos abertos, pelo menos).

No livro dois, surgirá uma nova estética, a ser incorporada a já existente. Mas isso é para mais adiante…

Arte: Kirk Parrish para a série Além-mar